Wu-wei e as ideias erradas sobre não fazer nada

ATENÇÃO: Primeiramente, já adianto que não sou especialista em Filosofia Oriental, muito menos em Filosofia Taoísta. Porém, do pouco que conheço e que tenho lido nos últimos anos, nada se assemelha com certas ideias que têm sido propagadas por aí. De qualquer forma, deixo indicações de leitura ao final do texto.

Boa leitura!

O que é esse tal de Wu-wei?

Muito se fala, mas pouco se explica, então bora entender melhor isso.

Wu-wei (無為 –wúwéi) é um conceito taoísta bem conhecido, geralmente traduzido como “não-ação” ou “ação sem agir“. Esse paradoxo é considerado um conceito chave ou um dos princípios centrais da filosofia taoísta, sendo a fonte das ações mais nobres e o coração do que significa “seguir o Caminho” (o Tao – aquilo que não pode ser apreendido racionalmente).

Poético, não?

Uma das citações mais frequentes sobre Wu-wei está no Tao Te Ching, um livro base do Taoísmo que é atribuído a Lao Zi (Lao Tse). No decorrer do livro, que possui uma leitura um tanto quanto desafiadora para nós, leigos no assunto, é comum se deparar com trechos do tipo:

O Tao nunca faz nada, mas através dele todas as coisas são feitas.” – Tao Te Ching, cap. 37

Na busca pelo conhecimento, todo o dia algo é acrescentado.
Na prática do Tao, todo dia algo é descartado.
Cada vez menos você precisa interferir nas coisas, até que finalmente você chega à não-ação.” – Tao Te Ching, cap. 48

Difícil de compreender Wu-wei (não-ação) à primeira vista, hein?

Enfim, as barreiras lingúisticas tornam tudo ainda mais aparentemente “enigmático”. E claro, como acontece com grande parte das ideias traduzidas, esse conceito é, com certa frequência, confundido com “não agir” ou simplesmente não fazer nada. E isso não passa de um grande equívoco…

As ideias erradas sobre a não-ação

O problema é que Wu-wei, assim como vários outros conceitos sejam eles Taoístas, Budistas, Hinduístas etc., sofre com uma tremenda descontextualização. Assim, qualquer um interpreta da maneira que quer ou que melhor lhe convém, às vezes criando não só concepções equivocadas, mas também práticas que ferem a si e aos outros ao seu redor.

O famoso “guru de feira”

E olha, eu já vi de tudo, inclusive gente escrever um livro inteiro afirmando que para experimentar Wu-wei é necessário parar de pensar completamente (!). Zero absoluto. Matar a mente e por aí vai. Não sei vocês, mas a suspensão de todo e qualquer pensamento ocorre quando alguém morre. Enfim…

O que quero dizer é que não-ação não é e nunca será a mesma coisa que nada fazer. Wu-wei não é ficar sentado esperando que as coisas aconteçam, que os problemas se resolvam sozinhos ou que você ganhe na mega-sena sem ao menos ter apostado.

As coisas não irão cair do céu e nenhuma resposta divina surgirá do nada. Preguiça, irresponsabilidade, sedentarismo, apatia, fuga dos problemas, encher a cara na bebida (sim, também admito!)… Isso tudo é ideia errada de guru de feira!

A verdadeira Ação sem esforço

Se por um lado tem gente que abandona tudo e não faz nada, por outro há aqueles que tentam controlar tudo. De maneira geral, às vezes nos comportamos como tudo dependesse somente do nosso esforço. Por isso, não é incomum nos pergamos forçando uma situação ou alguém, analisando demasiadamente um fato ou julgando até a exaustão.

E muitas vezes isso tudo não nos leva a nada. Só energia gasta e gera dores de cabeça acumuladas na conta.

Quando se diz de uma ação sem esforço, isso se refere a uma ação despropositada, sem segundas intenções. Sem forçar nada nem ninguém, sem interferir na vida e/ou nas escolhas de outrem.

Fala-se de uma ação sem intenção, mas vale ressaltar novamente: de maneira nenhuma pressupõe não agir.

Preguiça não é wu-wei

Wu-wei é reconhecer que a Vida acontece agora, neste exato instante. Você não está com a cabeça voltada para o passado ou o futuro, pensando em como você seria feliz se tivesse isso ou aquilo. Você está aqui, no momento, sem julgar isso como feio ou bonito, como certo ou errado. É essa ideia que está escondida quando poeticamente dizem que você tem que “fluir com a Natureza“. É simples.

Porém, simples não quer dizer que seja fácil viver.

Dizem que é mais fácil atingir algo se abandonarmos nossa necessidade (leia-se apego) de alcançar esse algo. Só que, ao mesmo tempo, esse desapego, esse abandono também evoca uma espécie de “treino”, de preparação.

É como preparar o solo (corpo, mente e alma), adubar e regar (prover as condições necessárias) e deixar que a natureza cuide do resto.

É não deixar de fazer porque está pensando demasiadamente sobre algo, especulando, premeditando etc. É evitar qualquer ação que seja desnecessária, renúnciar a análise e julgamento da realidade.

Wu-wei é viver sem ser dominado pelos desejos ou ambições – sejam suas ou dos outros. É executar uma ação que não seja contaminada pelas ideias dualistas do tipo “bom ou ruim”, “certo e errado”. É agir sem esforço desnecessário, sem peso, sem prisões. Ao invés de controlar, se integrar. Ao invés de forçar, deixar fluir.

Recapitulando

  • Wu-wei não é preguiça, sedentarismo ou apatia – isso é ideia errada de guru de feira!
  • Pare de tentar ir contra a natureza;
  • A vida acontece agora, nesse exato instante;
  • Às vezes é preciso deixar as coisas seguirem o seu curso.

Indicações de Leitura

  • Artigos e blogs:

Não ação/ Wu Wei. Em: Sociedade Taoísta do Brasil.

Blog Filosofia Taoísta. Do professor Chiu Yi Chih.

  • Livros:

TSE, LAO. Tao Te Ching. Rio de Janeiro, Mauad, 2011.

CHERNG, Wu Jyh. I Ching – O Tratado das Mutações. Rio de Janeiro: Mauad Editora, 2015.

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