A importância de desenvolver o Pensamento Crítico

Existe alguma maneira de desmantelar conceitos pré-concebidos e ideias mal formuladas? De nãos ser conformista e aceitar qualquer coisa? De não se deixar levar por argumentos mal construídos? E de não tomar decisões completamente equivocadas? Sim: através do Pensamento Crítico.

O texto a seguir tem como objetivo esclarecer o que é o Pensamento Crítico e como podemos desenvolvê-lo.

Boa leitura!

Não somos ensinados a pensar

Ok, a afirmação no subtítulo soou um exagero. Afinal, o pensamento em si é uma função cognitiva comum aos seres humanos em seu estado saudável. É uma característica desenvolvida enquanto espécie, ligada ao nosso conhecimento sensorial – fonte pela qual o homem adquire conhecimento acerca do meio e de si mesmo – e também pela memória. A partir do pensamento nós conhecemos as coisas, estabelecemos relações, fazemos generalizações e inferimos resultados. Sua realização se dá por meio da linguagem, já que é através dela que damos forma e expressamos aquilo que pensamos.

No entanto, apesar de possuirmos essa maravilhosa e refinada ferramenta, a verdade é que não somos ensinados a utilizá-la de maneira correta. Nossos pensamentos são, na maior parte das vezes, difusos, “ruidosos”, carregados de emoções, memórias e percepções que interferem em nosso julgamento.

“Penso, logo existo” – disse Descartes. É clichê, mas sempre válido

O fato é que a maior parte das nossas escolhas sequer passa por um crivo, um filtro racional. Além do mais, muitas crenças que sustentamos tendem a ser fixadas mais em componentes emocionais ou irracionais do que em componentes lógicos. Não que as emoções sejam um problema, mas existem inúmeras decisões sérias e delicadas, as quais impactam várias outras pessoas, que são tomadas de maneira inconsequente dada a ausência de reflexão adequada.

Esse problema vem desde cedo, quando em nosso desenvolvimento a maioria não é estimulada a conhecer, compreender, analisar e tomar decisões de maneira satisfatória. Se você teve um ambiente familiar e escolar que lhe proporcionou esse tipo de coisa, agradeça e considere-se uma pessoa de muita sorte. Pois a maioria das pessoas não é ensinada a pensar corretamente. O foco, de maneira geral, é apenas memorizar, decorar e fazer aquilo que é solicitado.

Carecemos, então, de que nos ensinem o Pensamento Crítico.

Mas que raios é isso?

O que é Pensamento Crítico?

Como foi dito anteriormente, não somos treinados para pensar criticamente. Objetivando a recompensa imediata, a maioria tende a se guiar por componentes irracionais. Assim, muitas decisões importantes são tomadas de maneira equivocada, problemas são mal solucionados e assuntos importantes são superficialmente tratados.

Para contornar esse problema, é essencial que se faça uso do pensamento crítico. Mas qual é a definição disso?

Tem que pensar, né? [Fonte: Shutterstock]

Em poucas palavras, é habilidade de avaliar as ideias e argumentos, de forma a construir pensamentos consistentes e lógicos a partir disso. Trata-se de analisar um tema ou problema de maneira racional, colocando de lado as emoções e as crenças pessoais. Por isso, ele exige clareza e precisão dos argumentos, coerência e evidências, além de se aproximar dos fatos e dados com mais precisão.

É uma forma cuidadosa e focada em resultados, que possibilita que os sujeitos sejam mais críticos e reflexivos. Sendo assim, o pensamento crítico permite resolver problemas de maneira mais eficaz, além de melhorar significativamente na tomada de decisão.

Benefícios do Pensamento Crítico

Embora a palavra “crítico” possa ter uma conotação negativa para algumas pessoas, a ideia por detrás dessa maneira de pensar não tem nada de desfavorável. Pelo contrário, é notável a quantidade de benefícios que o pensamento crítico pode trazer para uma pessoa. Ele permite que se desenvolva mais autonomia e autossuficiência, de modo a reconhecer seus próprios limites e não se deixar levar apenas pela aceitação social e pelo conformismo.

Uma melhora na comunicação e também cooperação podem ser notadas, pois a partir do momento em que ampliamos nossa visão, também estamos abertos a conhecer a visão do(s) outro(s). Inclusive, você para de tentar invadir ou converter o outro com suas ideias e se abre para explorar seus argumentos.

Algumas fontes sobre o assunto (você pode encontrar ao final deste texto), também destacam como efeitos a flexibilidade de pensamento, a tolerância e o aumento da curiosidade. Ainda há outros aspectos relacionados à saúde mental e bem-estar, tais como atenção, concentração e controle de pensamentos e autoavaliações negativas também podem ser percebidos.

Como desenvolver o Pensamento Crítico

O pensamento crítico é uma habilidade que qualquer pessoa pode aprender, desenvolver e aperfeiçoar. Como toda habilidade que se deseja aprender, isso exige dedicação, tempo e esforço. Ademais, a curiosidade e a leitura são dois pontos importantes nesse processo.

Para facilitar essa caminhada, existem alguns pequenos passos que podem ser seguidos para desenvolver um modo de pensar criticamente:

1. Comece fazendo perguntas:

Perguntas são essenciais para reformular nossas próprias ideias. Obviamente, não é todo tipo de pergunta que leva a uma análise correta das ideias e pensamentos. Porém, o velho e batido “por quê?” das crianças pode ser de grande ajuda nessas ocasiões.

Você não precisa ser um Sócrates, mas um ‘quê’ de dúvida faz parte do jogo. Não tenha receio de questionar e explorar suas crenças, ideias e pensamentos, bem como as dos outros também.

É preciso colocar em cheque ainda algumas “verdades inquestionáveis”. Por isso, não se conforme com coisas já previamente “dadas” e estabelecidas. Pergunte-se até que ponto “tal coisa” é verdadeira? Quem disse “isso”? Foi comprovado? Pode ser discutido?

2. Foque no essencial:

Um grande erro é divagar em questões e temas que não são relevantes ou nada tem a ver com a situação. A verborragia e a falta de foco são grandes inconvenientes nesse sentido, pois fala-se de tudo, menos o necessário. Geralmente, o verdadeiro problema ou o cerne da questão é algo que a maioria ignora ou não se atreve a falar.

Se você está diante de um impasse em fechar um contrato de trabalho até o final do seu expediente, não adianta nada ir falar da fome na África. Não que a fome na África seja algo irrelevante, mas naquele momento ela não tem função alguma para a sua decisão. Então, qual é o verdadeiro ponto a ser considerado? Quais as vantagens e desvantagens, por exemplo, do contrato? Quais aspectos emocionais / de satisfação pessoal devem ser levados em conta? Quais as possíveis consequências?

E por aí vai…

3. Colete e analise as informações:

Somos bombardeados o tempo todo por informações, sendo que muitas delas são completamente descartáveis. Por isso, é sempre bom ter uma cautela especial com fontes de informação, pois algumas podem não ser confiáveis. Questione se isso é verdadeiro, válido, comprovado e justificável. Verifique as referências e use as fontes corretas como base da sua argumentação, de modo a construir um argumento sólido. É preciso saber justificar nossos pensamentos.

É aconselhável buscar várias fontes, ou seja, mais de um ponto de vista sobre determinado assunto. Também levante hipóteses alternativas, procure por evidências e explore possíveis soluções.

DICA: Cuidado para não passar o resto da vida colhendo informações, mas não executar nada com aquilo. O excesso de informações causa uma espécie de “paralisia”. Na dúvida, menos é mais – opte por poucas fontes, mas que sejam confiáveis.

4. Construa conclusões ou soluções lógicas:

Não adianta inferir um resultado que você não pode comprovar ou afirmar algo a partir de argumentos completamente incoerentes e/ou desconexos. De igual maneira, não é muito correto fazer generalizações a partir de um único evento ou uma única variável.

Lembre-se da máxima:

Correlação não implica em causalidade.

A sua conclusão, solução ou crítica deve seguir uma ordem lógica, ressaltando os pontos principais e defendendo suas ideias. De modo geral, a crítica deve ser construtiva, isto é, apontar o que deve ser melhorado e, se possível, propor uma solução. Sendo assim, tenha atenção redobrada com falácias, distorções cognitivas, dogmas, entre outros.

Ao final, devemos saber realizar uma exposição clara de nossas ideias e pensamentos. Se isso não for possível ou se as evidências e argumentações forem insuficientes, é melhor suspender o julgamento ou decisão acerca de determinado assunto do que cometer graves equívocos.

5. Reavalie e mantenha a mente aberta:

É humanamente impossível saber de tudo. Por isso não mantenha pensamentos fechados e tenha sempre uma perspectiva de aprendizado constante. Podemos estar completamente equivocados em relação a alguma conclusão ou julgamento. Portanto, é válido manter uma postura aberta ao que nos é desconhecido.

Dizem que reconhecer a própria ignorância muitas vezes é sinal de sabedoria

Cuidado também com as afirmações absolutas e generalizações do tipo “isso nunca acontece”, “é sempre assim”, etc.

Finalmente, não tenha medo de rever suas crenças, tenha honestidade consigo mesmo a ponto de mudar suas opiniões e pensamentos quando necessário.

Últimas considerações

Claro que nem tudo é um mar de rosas e você deve ficar atento com o excesso de crítica. Aliás, crítica por pura crítica é um simples desperdício de capacidade cognitiva (masturbação mental), além de levar a desentendimentos e atritos desnecessários. Pegue leve na problematização, ok?

Outro cuidado é de não cair em uma ode à razão. Afinal, nossa forma de lógica clássica não é um cânone (temos muito o que aprender com a Filosofia Oriental nesse sentido) e devemos estar abertos para maneiras não convencionais de pensar e resolver problemas.

Por fim, o condene as emoções e também não ache que você sempre terá neutralidade absoluta, pois não somos imparciais o tempo todo e não somos máquinas isentas de afeto e de emoções.

Recapitulando

  • Nosso sistema, de modo geral, não nos ensina a pensar corretamente;
  • Tomamos muitas decisões equivocadas por não refletir e analisar as situações;
  • O Pensamento crítico é uma ferramenta indispensável na tomada de decisões;
  • Os benefícios do pensamento crítico incluem a autonomia, tolerância e flexibilidade de pensamento;
  • É possível desenvolver o pensamento crítico;
  • Não demonize as emoções, pois a razão não é a salvação da sua vida;
  • Tome cuidado com o excesso de crítica e problematização. Vai que tu aparece no print das Problematizações chiques, né?

Indicação de Leitura

CARNIELLI, Walter A.; EPSTEIN, Richard L. Pensamento crítico: o poder da lógica e da argumentação. Editora Rideel, 2009.

CROSSETTI, M.G.O; BITTENCOURT, G.K.G.D; SCHAURICH, D; TANCCINI, T; ANTUNES, M. Estratégias de ensino das habilidades do pensamento crítico na enfermagem. 2009. Disponível em: Revista Gaúcha de Enfermagem.

FREEMAN, Arthur; DEWOLF, Rose. As 10 bobagens mais comuns que as pessoas inteligentes cometem e técnicas eficazes para evitá-las. Rio de Janeiro: Editora Guarda-Chuva, 2006.

 

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