Quando a Lógica clássica não é a saída

ATENÇÃO: Antes de começar com o artigo, já adianto que não sou especialista em Filosofia Oriental, muito menos em Lógica. Porém, do pouco que conheço e que tenho lido nos últimos anos, nada se assemelha com certas ideias que têm sido propagadas por aí. Ao final deste texto, deixarei algumas referências e indicações de leitura para os interessados.

Também me coloco à disposição para quaisquer dúvidas, críticas ou contribuições – tendo em vista que o assunto extrapola o meu nível de conhecimento e propriedade sobre o mesmo.

Ok, vamos lá:

Muitas vezes quebramos a cabeça com problemas que, aparentemente, nos mostram ser sem saída ou sem solução. Inicialmente, o pensamento crítico pode ser uma excelente ferramenta para a resolução destes problemas. No entanto, nem tudo pode ser abarcado por este tipo de ferramenta e é comum ficamos paralisados diante de situações em que a lógica clássica não funciona como deveria (ou como gostaríamos).

Porém, existem outras formas de pensar, de encarar ou simplesmente aceitar os problemas ou situações desafiadoras. São maneiras que rompem com nosso pensamento lógico do tipo A+B=C.

Para tanto, este artigo pretende abordar tais formas de pensamento, fazendo um breve passeio pelo o que chamamos de “pensamento oriental”* em contraponto com a lógica do ocidente, indicando suas características e como ele pode nos ser útil em certos momentos de nossa vida.

Boa leitura!

Princípios da Lógica Clássica ou Ocidental

Falar de lógica (e reduzi-la a um simples conceito de “lógica ocidental”) é uma simplificação bastante tacanha. De fato, no campo da Filosofia iremos nos deparar com diferentes pensadores e propostas distintas sobre as operações intelectuais que visam determinar se algo é verdadeiro ou falso, e também das formas do pensamento em geral. No entanto, não cabe a nós entrar nos méritos da discussão filosófica.

O que interessa aqui é como isso é aplicado em nosso cotidiano. Por isso, optei por uma redução do que seria o pensamento tradicional ou lógica clássica, que compreende as “regras” e operações que aprendemos desde cedo para lidar com situações que envolvam o raciocínio e resolução de problemas.

Tais regras são como um guia para as operações intelectuais, tendo este estudo se iniciado a partir de AristótelesBertrand Russell também é um nome importante para o assunto.

De modo geral, a lógica (ocidental) clássica opera a partir de três princípios:

1. Lei da Identidade

Segundo o filósofo Gottfried Leibniz (1646-1716), a ideia por detrás dessa lei pode ser expressa por “tudo é o que é“, o que quer dizer que cada coisa tem uma identidade unitária, uma essência. Se algo aparenta não possuir uma identidade unificada, então deverá ser analisado em partes, isto é, a partir de seus elementos constituintes (ou componentes), que por si só serão analisados como entidades unitárias.

Entendeu?

Um exemplo prático disso é dizer que um gato é um gato. Se ele é um gato, ele não pode ser um cachorro. O que nos leva para a próxima lei…

2. Lei da não-contradição

Essa lei declara que nenhuma afirmação pode ser, ao mesmo tempo, igualmente verdadeira e falsa. É dizer que “A” não pode ser ou não é igual a “não-A”. Defende-se que uma proposição verdadeira não pode ser falsa e nem uma proposição falsa pode ser verdadeira.

Para Aristóteles, o princípio da não-contradição é considerado o primeiro e mais adequado princípio da lógica. Ou é oito ou é oitenta, não os dois ao mesmo tempo. Jamais!

3. Lei do terceiro excluído

Para Bertrand Russell, essa lei funciona como um complemento da anterior. Ela refere-se a compreensão de que não existe meio-termo. Qualquer afirmação é verdadeira ou falsa, mas não pode ser os dois ao mesmo tempo ou “ser meio um e meio outro”.

Sabe aquela ideia de “caminho do meio”? Pois é, ela não cai bem aqui, nem ficar em cima do muro também.

Inclusive, é a partir dessa assunção que temos as categorias opostas, tais como: bom e mau, preto e branco, quente e frio – e toda a sorte de categorias binárias com as quais lidamos diariamente.

Entretanto, existem sistemas e formas de pensamento que escapam desse tipo de raciocínio compactado – e que podem ser muito valorosas e úteis.

A contribuição do pensamento chinês

Seria um ultraje querer definir a riqueza do pensamento chinês em um artigo ou em poucas linhas, limitando e reduzindo uma complexidade de métodos a simples afirmações ou suposições gerais. Ademais, existem componentes históricos e linguísticos que não podem ser ignorados – porém, meu conhecimento sobre o tema não permitiria ir tão longe.

Por isso, uma generalização cuidadosa (com todo cuidado que é possível) permite dizer que muitas escolas e pensadores chineses não se preocupavam tanto com o aspecto metafísico ou com uma explicação acerca da realidade última, mas com o plano físico ou terreno.

A ênfase se dá no aqui e agora, de modo a alcançar uma determinada eficácia no plano físico do que no plano transcendental. Dar um sentido ao ato de existir toma muito mais corpo e relevância. Especular demasiadamente sobre o mundo e os aspectos transcendentais era, de modo geral, evitado.

 

O filósofo chinês Mozi

Dessa forma, alguns princípios gerais podem ser elencados:

1. Princípio da Mudança

É dizer que a realidade é um processo, ou seja, tudo está em um constante fluxo. Tudo é apenas temporário, dinâmico e flexível. Portanto, os conceitos que definem essa realidade também devem ser mutáveis e interativos, ao invés de serem fixos e objetivos.

Seguindo esse princípio, a inconsistência no raciocínio não é considerada uma falta grave, porque mudar seus pensamentos e ideias uma vez ou outra pode ser considerada uma coisa sábia a se fazer, de acordo com o momento e a necessidade.

2. Princípio da Contradição

Esse princípio diz que a realidade está completamente permeada de contradições. Não há como escapar e nem tudo é tão “preto no branco” assim. Pelo fato da mudança ser constante, a contradição também é constante. Velho e novo, bom e ruim, forte e fraco, coexistem em tudo.

No I Ching (Yijin) – O livro das Mutações, o princípio de contradição (também o de mudança!) aparece de forma evidente. Yin e Yang, forças opostas consideradas fundamentais que se encontram em todas as coisas, mudam e interagem de maneiras que são difíceis de prever, mas que sempre envolvem ambos como opostos complementares.

Em suma, nada é o que é somente por essência ou identidade, mas é apenas em relação a alguma outra coisa – ou seja, em comparação imediata com ela. Pode-se dizer que é um pensamento do tipo situacional.

3. Princípio do Holismo

Poderia-se dizer que esse princípio é a essência do pensamento chinês, e isso nada tem a ver com uma perspectiva holística good vibes. É que como consequência da mudança e da contradição, assume-se que nada é isolado e independente, mas tudo está conectado.

Se realmente queremos conhecer algo ou alguém, devemos conhecer o máximo possível as suas relações – como isso afeta e é afetado por todo o resto. Como dizem na Gestalt: o todo é mais do que a soma de suas partes.

Os indivíduos humanos em um mundo holístico não podem ser entendidos como indivíduos. Eles sempre existem em relação aos outros, por exemplo, na família: todos são idosos ou jovens ou filhos e filhas, mesmo entre os seus pares.

“O universo é uma rede de relações íntimas, de modo que nada pode ser reduzido a um ponto no espaço ou a um instante no tempo.” – André Bueno

Qualquer coisa considerada isolada é distorcida porque as peças só são significativas nas suas relações com o todo, por isso que um conceito também deve ser considerado dentro de um contexto. As diferenças, então, são percebidas em função dos contextos maiores através dos quais todos os elementos estão (inter)relacionados.

A perspectiva Zen-Budista

Quando se fala em Zen Budismo, no senso comum, uma série de ideias estranhas (e absurdas) que permeiam o imaginário social vem à mente: de uma “filosofia zen” que preza o minimalismo, de um culto à irracionalidade ou de um monte de pessoas pacíficas e boazinhas que praticam meditação (tipo a onda moderna do mindfulness).

E nada poderia estar tão errado…

O fato de dizer que o Zen propõe uma “transcendência da mente”, às vezes, conduz a uma concepção um tanto quanto absurda de que o zen preconiza a irracionalidade ou a morte da mente lógica (isso quando a galera não viaja na tal da morte do ego). Não haveria nada mais equivocado do que este tipo de compreensão!

De modo geral, o que o Zen Budismo pretende apontar é para o outro lado da coisa: para a incapacidade do intelecto de responder perguntas como “Quem sou eu?“, “Para onde vou depois da morte?“, etc. A ideia central é de reconhecer as limitações do pensamento lógico, do raciocínio e não de extinguir isso completamente ou lutar contra ele. 

Ademais, reconhecer esta limitação implica ainda em uma ampliação do próprio pensamento e visão de mundo, a partir de uma perspectiva de integração das coisas, dos pontos de vista, produzindo uma espécie de síntese que extrapola as limitações do ego e da lógica, além de basear-se no aqui e agora.

Deixo aqui um vídeo da ilustríssima Monja Coen que exemplifica bem o que quero dizer:

Ver as coisas com um outro olhar

É importante ressaltar que quando se diz de “pensamento oriental”, isso em nenhuma hipótese equivale a dizer que “eles pensam de tal forma e nós de outra“. Afinal de contas, vivemos em um mundo capitalista, globalizado. Também não quer dizer um país específico, mas várias culturas e distintas formas de pensar – aliás, há várias filósofos, pensadores e escolas na China, Índia, Japão etc. – e que deveríamos conhecer (seria esse o meu sonho?).

Enfim, recorrer a esses pensadores pode ser de extrema valia quando a especulação não ajuda a resolver os nossos problemas do cotidiano e angústia toma conta. Essa extensa preocupação com o “aqui e agora” e com o ato de existir por parte de escolas como o Budismo ou o Taoísmo, contribui para pensar em uma eficácia no plano físico (e não no metafísico). As coisas são feitas aqui, neste momento. Elas são como são, sem julgamentos.

Portanto, a filosofia oriental nos oferece valorosas indicações das quais não aprendemos no nosso dia-a-dia. E ao entrar em contato com elas, explorar, refletir, aprender e aplicar, aí uma coisa deveras interessante pode acontecer: a mudança do seu próprio olhar em relação ao mundo e a si mesmo.

Recapitulando

  • Nossa lógica se baseia em um sistema binário, do tipo: isso é falso ou verdadeiro, preto ou branco etc.;
  • A lógica clássica e a nossa maneira de pensar se baseia em princípios de identidade, não contradição e do terceiro excluído;
  • O raciocínio lógico não é o único e exclusivo caminho;
  • Os princípios da mudança, contradição e holismo podem ajudar romper com nosso paradigma engessado; 
  • O Zen não advoga pela simples e pura irracionalidade – nooooo!;
  • Entrar em contato com a filosofia oriental pode nos abrir um leque de possibilidades e perspectivas;
  • Ao final, é possível mudar seu olhar em relação ao mundo e a si próprio.

Indicações de Leitura

ARISTÓTELES. Órganon – Coleção Obras Completas. Bauru: Edipro, 2016.

BUENO, André da Silva. O segredo da filosofia oriental para a felicidade. 2017. Disponível em: Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 89. Adaptado em: Filosofia Ciência & Vida Online.

BUENO, André da Silva. Lógica chinesa?. Disponível em: Crítica na Rede.

DOGEN, Eihen. Shōbōgenzō. (trad. Thomas Cleary). Honolulu: Hawaii University Press, 1992.

JOSEPH, Needham. Science and Civilization in China – Vol VII: Language and Logic. Cambridge: Cambridge  University Press, 1998.

MOORE, Charles A. (org.). Filosofia: Oriente, Ocidente. São Paulo: Edusp-Cultrix, 1978.

TZU, Sun. A Arte da Guerra. (trad. André Bueno). São Paulo: Jardim dos Livros, 2010.

TSE, Lao. Tao Te Ching – O livro do caminho e da virtude. (trad. Wu Jyh Cherng). Rio de Janeiro: Mauad, 1999.

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