É possível lidar com o Vazio (interior)?

Diante de tantos problemas cotidianos é comum esbarrar na chamada “sensação de vazio”, principalmente quando se passa por um momento introspectivo, de uma perda ou um luto. Por isso, lidar com o vazio (muitas vezes chamado de “vazio existencial“) é uma tarefa que muito se fala, mas poucos se atrevem a encarar ou tocar.

Para tanto, este texto pretende ir um pouquinho além da perspectiva “existencial” acerca do vazio. Também pretende-se refletir se é possível ou não lidar com o vazio e quais são as outras escolas, ou melhor, as outras perspectivas sobre o assunto.

Vamos lá:

Fuga: evitando lidar com o Vazio

Nos tempos atuais estamos acostumados a ter sempre algo, um objeto (seja ele físico ou não) que se situe em determinado espaço. Aliás, espaço é uma coisa que falta: não temos horários, pois vivemos com a agenda cheia; não temos lugar em casa, pois tudo está lotado de cacarecos; não possuímos lugar para o outro, já que sempre há “gente demais”; o estômago não fica vazio, pois sempre enchemos com alguma porcaria qualquer, não há silêncio e quietude; pois nos cercamos de ruídos e barulhos.

Com isso, percebe-se a necessidade frenética de preencher os espaços e tampar os buracos, sejam eles físicos / materiais, afetivo-emocionais, etc. Sempre estamos saciando essa “fome”, ainda que momentaneamente. Porém, bem lá no fundo esse buraco continua lá, marcando presença tal qual como um aluno dedicado que não falta em nenhuma aula.

Esse vazio gera sofrimento e traz uma bagagem boa junto: angústia, raiva, medo, tristeza e por aí vai. Há uma sensação de inquietude que toma conta, desestabiliza. A ausência machuca, o buraco incomoda, o espaço em branco gera ansiedade.

Diante disso, existem duas escolhas possíveis: encarar o vazio e as suas consequências (olhar de frente e tomar uns belos tapas na cara) ou fugir. E, geralmente, fugimos feito corredores em maratona.

Mas se existisse uma outra forma de olhar para esse vazio que não fosse assim tão desesperadora?

O Vazio nas Artes Orientais*

Dentro de algumas tradições de países do oriente*, tais como China e Japão, as representações de espaços e vazios adquiriram muitas formas. No entanto, é comum encontrar alguns ideogramas frequentes [colocados aqui em seu significado no idioma japonês]:

  • Kuu (空), o vazio propriamente dito, presente em textos budistas e que representa a ideia de vacuidade;
  • Mu (無), o nada, o negativo;
  • Ma (間), uma espécie de espaço negativo ou espaço-tempo, que também é aplicada nas pinturas, música, artes marciais, literatura etc.

Ainda que os ideogramas apresentem algumas distinções em termos de significado e uso, eles possuem um ponto de contato: a importância do espaço, do vazio, desse “nada”. Existe sempre um movimento e uma pausa, um ritmo e um contra ritmo, um momento de respiração. Um intervalo necessário entre as ações e que não precisa de ser preenchido. Ele deve existir, pois cumpre uma função.

A Grande Onda de Kanagawa, de Hokusai. Observe que o espaço sem tinta (“branco” no céu, o vazio) tem sua ‘razão de existir’ na xilogravura.

É nesse vazio que todos os fenômenos aparecem e desaparecem, se arranjam e rearranjam. Esse “movimento” é importante para criar um todo harmônico. Sem o espaço, sem os intervalos, seria tudo um verdadeiro caos.

Inclusive, nas Artes Marciais a ideia de esvaziar-se é buscada (bem, não “buscada”, já que não deve existir um desejo ou apego em relação ao resultado). Porém, isso nos leva a refletir se essa visão sem julgamentos acerca do Vazio também pode ser estendida para o campo pessoal ou psicológico.

O “Nada” na Filosofia e Psicologia Japonesa

Na filosofia contemporânea japonesa, a Escola de Kyoto é um nome que aparece com grande destaque. Encabeçada pelo professor Nishida Kitaro, sua proposta era assimilar as ideias da Filosofia e Religião ocidental, usando-as para reformular os insights morais, religiosos e culturais da tradição asiática. Um dos conceitos centrais dessa escola é a ideia de “Nada Absoluto“. Embora essa concepção seja bem diferente da ideia de Vazio (bem comum no Zen-Budismo), colocaremos aqui no mesmo patamar apenas para fins didáticos e práticos [1].

Para além do campo da Filosofia, ressalta-se a influência que o pensamento da Escola de Kyoto teve em outras áreas, em especial a Psicologia. Foi através de Hayao Kawai, o primeiro psicólogo junguiano do Japão, que a ideia do “nada” (ou do “vazio”) ganha um alcance psicológico interessante.

Ao analisar os contos de fada japoneses, através do método junguiano, Kawai nota que há uma estrutura que foge dos padrões “ocidentais” de histórias. É que, de modo simplista, podemos dizer que as histórias geralmente têm um final, às vezes uma espécie de moral, enquanto alguns contos orientais (aqui me refiro apenas a China e Japão) simplesmente terminam de forma abrupta. Percebe-se uma tendência em terminar as histórias em nada, ou melhor, em perceber que “nada acontece” [2].

Só que esse “Nada” não representa algo negativo, pelo contrário, ele está para além do velho binarismo “positivo e negativo”. O Nada ou o Vazio guarda em si uma potencialidade [3] e, paradoxalmente, representaria o Todo. Seria um campo fértil para as mais diversas criações pessoais, repleto de possibilidades de existência e de escolhas. Não há nele limites para a criação. É um “lugar” dinâmico, em que todas as transformações possíveis podem ser provocadas.

Um copo pode ser muito bem decorado, mas é o seu vazio (interior) que o torna útil.

O Vazio fértil na Gestalt-terapia

Criada por Friederich S. Perls e, posteriormente, desenvolvida em conjunto com Laura Perls e Paul Goodman, a Gestalt-terapia é uma abordagem psicoterápica que dá ênfase na experiência individual e na responsabilidade do sujeito. Possui base nas experiências de Perls com a Psicanálise Freudiana, o Behaviorismo, a Gestalt alemã, o Existencialismo e algumas incursões no Zen-budismo.

Aliás, vale a pena notar que Perls fez uma utilização própria de conceitos Taoístas e Zen-budistas e, bebendo dessas fontes, sua abordagem coloca ênfase em viver o momento presente. O aqui e agora torna-se um elemento essencial na gestalt-terapia, que foca em promover um “despertar” do sujeito e utiliza a meditação e exercícios respiratórios como instrumentos para esse despertar [4].

Um dos conceitos bastante utilizados na gestalt-terapia é o de “Vazio fértil“, é dizer que se “nada há”, então existe algo. “Como assim?”, você pode perguntar. Em poucas palavras, esse vazio fértil contempla a ideia de que esvaziar-se é se abrir para novas possibilidades, para a constante mudança.

Trata-se de uma metáfora usada para representar o abandono de apoios infantis e/ou familiares e confiar no momento presente, se abrindo para o novo. É uma liberação que, segundo Perls, representa não ter nada a não ser o próprio instante. Ademais, diz-se que o processo terapêutico nada mais é do que um caminho que vai “do vazio estéril ao vazio fértil” [5].

É preciso uma aceitação do que se chama de “não-experiência” (Nada), ou seja, uma conscientização (despertar) para esse vazio.

Muitas vezes o sujeito nega a existência do “nada”, do vazio. Só que este nada só pode ser preenchido a partir do momento em que se desprende (desapega) de algo para, posteriormente, preencher isso com a própria subjetividade [6].

É aí que o “estéril” se torna um campo fértil para as mais diversas criações do sujeito.

Lidando com o Vazio: é possível?

Respondendo a pergunta do post: sim, é possível.

No entanto, sabe-se que não é fácil. Uma tarefa hercúlea, pesada – e muitas vezes o indivíduo pode se sentir como Atlas carregando o mundo em suas costas. Porém, pode até parecer clichê, mas algumas vezes certas experiências fortes e intensas produzem resultados magníficos. É como lapidar o “diamante”, tal como dizem por aí.

É no deserto árido que belas flores brotam.

De fato, é um momento em que somos convidados a refletir sobre o(s) sentido(s) que atribuímos a nossa existência. Aí que a subjetividade e criatividade humana entram em campo e ganham um papel fundamental.

Seja através da arte, das reflexões filosóficas, de se (re)encontrar em uma religião ou em um caminho espiritual, em fazer psicoterapia, escrever um diário etc., todas elas são formas de preencher as vivências de sentido. Nomear aquilo que, a princípio, parece inominável. De extravasar, de sair da caixinha ou de deixar “vazar o barril” de experiências [você pode chamar isso de sublimação também, sem problemas, ok?].

Falar é importante, externar o que sente, o que atormenta, o que te incomoda. E você pode fazer isso de inúmeras formas, sem necessariamente usar “palavras” para se expressar. O Vazio continuará lá, mas agora ele é abordado através de uma ótica diferente.

A questão é que não existem receitas de bolo, cada um tem a sua forma de lidar com certos buracos sem necessariamente tentar preencher isso desesperadamente com coisas supérfluas e sem sentido.

E também nem sempre temos força para fazer isso sozinhos. Caso isso aconteça, não hesite em procurar ajuda.

Ninguém é uma ilha, lembre-se disso. 😉

Recapitulando

  • Muitas vezes evitamos ou fugimos da sensação de vazio;
  • Não há necessidade de tentar preencher desesperadamente o Vazio;
  • Esse nada ou vazio é um espaço necessário;
  • O Vazio também esconde em si uma potência criativa;
  • Algumas formas criativas de preencher ou extravasar as vivências, entender-se e aceitar-se são: por meio das artes, filosofia, religião, espiritualidade ou pela psicoterapia;
  • Não há receitas de bolo;
  • Não tema, você vai encontrar a sua maneira de lidar com o vazio;
  • Se achar necessário, não hesite em procurar ajuda.

Indicações de leitura

[1] PIRES, Ludmila S. Do Budismo à Escola de Kyoto: reflexões sobre o “Nada” e o “Vazio”. 2017. Disponível em Academia.Edu.

[2] KAWAI, Hayao. A Psique japonesa – grandes temas dos Contos de Fada japoneses. Paulus, 2007.

[3] PIRES, L. S. Resenha: A Psique japonesa – grandes temas dos Contos de Fada japoneses. Revista Junguiana, 2016.

[4] REIS, P.D.K.; BERVIQUE, J.A. Taoísmo e Zen-Budismo na metodologia da Gestalt-terapia. Disponível em: Revista Faef.

[5] PEARLS, Frtiz. Gestalt-terapia explicada. Summus Editorial, 1977.

[6] YANO, Luciane Patrícia. As influências das religiões/ filosofias orientais na Gestalt-terapia: taoísmo e zen-budismo. Disponível em: Academia Edu.

Nota

* O termo “oriental” usado neste texto é bastante delicado, porque pode pressupor uma redução, isto é, colocar um leque de países e culturas completamente distintos dentro de uma mesma categoria. Na ausência de um termo que melhor se adequasse, este acabou sendo utilizado. Por isso, peço desculpas caso essa generalização tenha soado excessiva. 

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