A difícil arte do desapego

Ah, o desapego! Tão em voga que é até slogan de site de compra e venda. Há quem coloque um ar “espiritual” e de crescimento pessoal, mas a verdade é que parece um conceito que é difícil de alcançar – ao menos para nós, reles mortais.

Portanto, o artigo abaixo pretende abordar o apego dentro de perspectivas psicológicas, quais as suas funções e sobre o desapego a partir de outras óticas (como o Zen Budismo, por exemplo).

Boa leitura!

Apego é sinônimo de algo negativo?

O psicólogo e psicanalista John Bowlby (1907-1990) definia o apego como algo não necessariamente ruim. Ao pesquisar sobre o desenvolvimento infantil, Bowlby concluiu que, na verdade, o apego compõe-se de uma relação afetiva e duradoura que é estabelecida entre o bebê e sua/seu cuidadora/cuidador (os cuidadores primários da criança). Trata-se de como a criança irá organizar suas ações de modo a se aproximar e manter essa proximidade com outro indivíduo.

Dependendo de como esse vínculo é formado, a criança pode desenvolver certo padrões que serão fundamentais no seu desenvolvimento psíquico até a idade adulta. Bowlby estabelece esses padrões na chamada Teoria do Apego:

Apego seguro:

Trata-se da sensibilidade dos cuidadores em atender aos requisitos da criança, criando uma relação de segurança e confiança, porém, permitindo-as explorar seu ambiente e desenvolver a autonomia.

Crianças que desenvolvem o apego seguro tendem a ser pessoas que possuem opiniões positivas sobre si mesmas, sobre seus parceiros e sobre os seus relacionamentos. Sentem-se confortáveis tanto com a intimidade quanto com a independência, tendo facilidade de lidarem, por exemplo, com a ruptura de um relacionamento amoroso.

Apego ambivalente:

Se dá quando os cuidadores mostram-se ora receptivos, ora insensíveis às necessidades da criança. A criança mostra-se bastante incomodada ao se aproximar de outras pessoas. Quando os cuidadores retornam, ela altera o seu comportamento e não se aproxima facilmente – indicando uma relação ambivalente.

Adultos podem desenvolver a busca por altos níveis de intimidade, aprovação e receptividade do outro. Podem se tornar excessivamente dependentes de seus parceiros, duvidar de seu valor e culpar-se pela falta de receptividade do outro. Também, em alguns casos, pode-se indentificar a pratica de chantagem emocional ou ameças para conseguir a atenção do outro.

Apego evitativo:

É quando a criança é separada dos cuidadores, mas brinca de forma tranquila, interage bem com outras pessoas e apresenta pouca inibição. Ao passo que ao se aproximar de seus cuidadores, aparenta ter pouca necessidade de atenção, podendo se manter à distância e não procurá-los para obter conforto.

Na vida adulta, é comum apresentar um alto nível de independência, além se enxergarem como auto-suficientes e invulneráveis a sentimentos de estarem intimamente ligados a outras pessoas. Muitas vezes podem inclusive negar necessitar de relações íntimas.

Geralmente, também apresentam uma maior facilidade para lidar com qualquer tipo de separação. Sofrem, mas conseguem manter um equilíbrio emocional relativamente estável.

Apego desorganizado:

Acontece quando a criança tem experiências negativas e contraditórias em relação aos seus cuidadores. Ela também demonstra um comportamento impulsivo, expressando raiva, confusão ou perturbação durante suas interações.

Pessoas que desenvolveram esse tipo de apego, em sua fase adulta, podem apresentar sentimentos mistos sobre relacionamentos. Ora desejam ter relações emocionalmente íntimas, ora tendem a se sentir desconfortáveis com a intimidade. Podem ter opiniões negativas sobre si mesmas e os outros, vendo a si mesmas como indignas da receptividade e não confiando nas intenções das pessoas.

Tendem ainda a apresentar grande dificuldade nos rompimentos de laços afetivos e demonstrar o seu sentimento através de ações contraditórias.

 

Vale lembrar que o apego não é o determinante das relações, pois isso vai depender de outras variáveis, tais como: o ambiente social, personalidade e temperamento. E, claro, o apego também não é algo imutável.

Apego e história pessoal

Para muitos, o apego se torna um problema quando ele transforma-se em uma gaiola, em uma prisão pessoal. Quando nos torna incapazes de seguir em frente, criando resistências à mudanças que são necessárias e colocando-nos em conflito com nós mesmos e com o mundo.

Aí mesmo quando os indivíduos tentam se abrir para o novo, hora ou outra insistem em abrir o baú empoeirado das histórias passadas. Não é difícil, nesses casos, se pegar remoendo o passado, trazendo à tona acontecimentos, detalhes dolorosos e demais sofrimentos e humilhações.

O passado é um elemento importante, pois faz parte de quem somos agora. Nosso background influencia naquilo que gostamos ou não, nas escolhas que fazemos, no modo como experimentamos a realidade e nas nossas emoções e sentimentos.

Síndrome de Gabriela: “eu nasci assim, vou ser sempre assim”

Porém, ele não é um elemento determinante, no sentido de que “seremos sempre assim”. A nossa própria existência não se limita ao ontem, mas também é constituída do que somos agora e do que podemos ser amanhã. Parece batido, mas não deixa de ser verdade.

Correr do passado não parece uma alternativa saudável, bem como remoer tudo religiosamente também não. Então, o que poderia ser feito em prol de uma vida mais ou menos equilibrada?

(Des)apego e sofrimento na visão Budista

A tradição Budista aponta para o problema do sofrimento humano, delineando suas possíveis causas e como poderíamos cessar o sofrimento. A ideia principal é de que a causa desse sofrer humano advém do apego às coisas efêmeras, que por sua natureza são passíveis de transformação ou finitas.

O tempo todo nossas ações e decisões modificam nosso entorno, podendo mudar e abalar consideravelmente o mundo a nossa volta. As mudanças fazem parte da vida – sim, soa como um mantra clichê, mas é a realidade. Apenas aceite.

O fato é que as nossas certezas e bens são desmancháveis como castelos de areia. Por isso, o sofrimento surge quando se aferra não somente àquilo que se deseja, mas também no que já passou. A mente deseja e nos engana, na expectativa de que os momentos são permanentes.

“Ou desisto de tudo e não faço mais nada, não trabalho, não posso fazer mais nada. Isso se chama obsessão. A obsessão é o apego.” – Monja Coen, no vídeo “É amor ou apego?

O desapego, então, faz um papel importante na extinção desse sofrer. É importante ressaltar que não apegar-se ao sofrimento ou às coisas efêmeras não significa, necessariamente, a extinção das dores e desprazeres. Tristeza vai continuar sendo tristeza, dor irá continuar sendo dor. Apenas evita-se fugir ou mascarar isso, e se abraça o aspecto real desses sentimentos, sombras e experiências.

Também não é necessário largar o mundo e tornar-se um Eremita. Não é preciso abrir mão de tudo e de todos que nos são importantes.

Muita gente foge disso porque desapegar dói. A libertação das nossas algemas internas (e também externas) também tem seu peso. É necessário treino e observação para não cair nos enganos da mente e não deixar se levar pelos momentos, achando que eles serão “eternos”.

Desapego não é indiferença

Há pessoas que, tomadas por uma ideia de “filosofia zen”, tentam aplicar a ideia do desapego como se ele fosse sinônimo de indiferença – e está aí um erro crasso!

Você não precisa ser frio como o Alasca se quiser praticar o desapego. Não precisa dar as costas aos problemas e situações e fingir que não existem. Trancar-se no quarto ou ignorar as pessoas também não é desapego.

Aliás, essas coisas podem indicar mais um misto de orgulho, vaidade, desinteresse e egoísmo do que desapego em si.

Via: Ventos da Paz (http://ventosdepaz.blogspot.com.br/)

É normal confundir-se entre o que é necessário desapegar e o que seria uma simples fuga. Desapegar-se é um exercício duro que, muitas vezes, necessita de ajuda externa (um psicólogo, orientador, guia ou terapeuta).

É um exercício que convida-nos a deixar de lado o que não nos serve, mas sem perder a nossa essência.

Hora de seguir em frente

Muitas vezes, é necessário que deixemos de lado velhos comportamentos, hábitos e lembranças. Assim como há situações em que a saída mais sensata é sair e seguir em frente, abandonar certas “bagagens” também pode ser o mais saudável para o momento.

No entanto, podemos acabar criando mais subterfúgios e rotas de fura para não encararmos nossos medos ou a dor e atrasarmos ainda mais esse processo. O novo clama-nos, mas o apego que temos a nossa bagagem, expectativas e condições internas não nos permite seguir ou não estão em consonância com o mundo externo.

Aí ocorre o que geralmente chamamos de “choque de realidade”. Há um descompasso, uma resistência ao novo, à ampliação dos nossos horizontes e aos processos naturais da vida. Assim, criamos uma bela casca ou uma fortaleza impenetrável que nos proteja dos possíveis perigos. Só que essa fortaleza, cheia de armadilhas para os peregrinos / viajantes que ousam ultrapassá-las, também guarda armadilhas para nós mesmos. O sofrimento contínuo é uma delas.

Ao decidirmos seguir em frente e abandonar os apegos passados, nos comprometemos com nossa própria transformação. Os primeiros passos podem parecer estranhos, pouco seguros ou difíceis – mas, acredite, são essenciais.

E cada ciclo da vida clama por uma transformação, em um processo simbólico de morte e renascimento. É preciso abrir mão do velho para que o novo entre.

Desapego é um processo, por isso, seja paciente com você mesmo.

Recapitulando

  • Apego, para Bowlby, é um laço afetivo que foi construído na infância;
  • Em certos casos, o vínculo intenso e negativo com coisas e pessoas do passado é um pulo para uma obsessão;
  • Desapegar dói, libertar-se das amarras pode evocar o choro e sofrimento;
  • Desapegar-se também é impor limites;
  • Desapego é um processo que, não necessariamente, precisa ser feito sem ajuda;
  • Navegar é preciso.

Indicações de Leitura

BOWLBY, Edward John Mostyn. Apego. São Paulo: Martins Fontes, 2ª edição, 1990.

BOWLBY, Edward John Mostyn. As origens do apego. In: Uma base segura: aplicações clínicas da teoria do apego. Porto Alegre: Artes Médicas; 1989. p. 33-47.

COEN, Roshi. O Sofrimento é Opcional – Como o Zen Budismo Pode Ajudar A Lidar Com A Depressão. São Paulo: Belaletra Editora, 2017.

COEN, Roshi. Quatro Nobres Verdades. Disponível em: Monjacoen.com.br.

RODRIGUEZ, Diogo Antônio. É hora de seguir em frente. Revista Vida Simples, 2012, edição 119. p. 28-33.

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